A Deusa Hécate: Um pouco de sua Mitologia e Magia

Hécate está nas encruzilhadas, nas portas, nos caminhos, na noite e nos lugares onde um mundo termina e outro começa. Carrega tochas para iluminar aquilo que estava escondido e chaves para abrir aquilo que estava fechado. Mas talvez exista uma palavra que explique Hécate ainda melhor:

Libertação.

Hécate é a deusa dos caminhos, mas também é a deusa de quem precisa encontrar uma saída. Ela não promete que todos os caminhos serão fáceis. Às vezes, sua função é justamente mostrar que aquele caminho acabou… e então entregar a chave.

Hécate e as mulheres que atravessam a escuridão

Uma das histórias mais importantes para compreender Hécate aparece no Hino Homérico a Deméter, quando Perséfone desaparece. Durante nove dias, Deméter procura sua filha pelo mundo, carregando tochas. No décimo dia, Hécate aparece também com uma tocha nas mãos. Ela havia ouvido o grito de Perséfone. Não conseguiu enxergar quem a havia levado, mas ouviu.

Hécate não é apresentada como aquela que resolve tudo sozinha. Ela é aquela que ouve quando ninguém mais está ouvindo. Ela procura Deméter, conta o que sabe e a conduz até Hélio, que poderá revelar o que aconteceu com Perséfone. Depois da reunião entre mãe e filha, Hécate passa a acompanhar Perséfone e torna-se sua companheira. Hécate, portanto, está presente no momento em que uma mulher desaparece e também no momento em que ela retorna. Ela conhece o caminho de ida e o caminho de volta. É por isso que sua presença é tão forte quando falamos sobre transformação.

Hécate e Hécabe

Outra história que aproxima Hécate das mulheres que atravessaram situações de violência, perda e ruptura é a de Hécabe, a rainha de Troia. Depois da queda de Troia, Hécabe perde sua cidade, seu marido, seus filhos e sua posição. Ela se torna escrava e é levada pelos gregos. Ela chora e pede ajuda… então Hécate surge e a transforma em uma cadela. Assim ela pode fugir.

É uma história estranha, brutal… e profundamente simbólica. Hécabe perde tudo aquilo que definia quem ela era. Hécate não devolve a Hécabe sua antiga vida, nem tinha como. Não é possível apagar aquilo que aconteceu, mas oferece outro lugar para aquela mulher existir.

Eis a libertação de Hécate: libertar não significa devolver alguém à vida que tinha antes. Libertação pode ser conseguir deixar de ser aquilo que o mundo decidiu que você deveria ser, principalmente após uma tragédia como a de Hécabe.

Hécate e Galíntias

Sei que é complicado e machuca, mas a vida não volta para o passado, podemos apenas nos mover em direção do futuro… E por isso, para entender ainda melhor isso, vamos ver mais uma história envolvendo uma mulher que atravessa uma transformação.

Galíntias ajuda Alcmena durante o parto de Héracles, enganando as divindades que tentavam impedir o nascimento da criança. Quem tentava impedir? Hera, furiosa com a traição de Zeus. Como punição, Galíntias é transformada em uma doninha. Hécate, porém, compadece-se dela e a transforma em sua serva sagrada. Novamente encontramos uma mulher colocada em uma situação-limite e Hécate aparecendo para auxiliar e lhe dar um novo caminho.

Ela não desfaz completamente aquilo que aconteceu. Ela oferece pertencimento, oferece função, um novo lugar no mundo. São histórias diferentes, de épocas e autores diferentes, e não devemos transformá-las em uma única narrativa que nunca existiu. Mas existe um fio simbólico interessante atravessando todas elas: Hécate aparece nas fronteiras.

No momento em que uma mulher perde alguma coisa., quando uma identidade se perde. Hécate vem quando não tem mais jeito, a única saída é atravessar para um mundo desconhecido onde você pode recomeçar.

Hécate, a Deusa da Libertação

Quando falamos em libertação, é comum imaginar apenas alguém rompendo correntes. Mas existem correntes muito mais difíceis de enxergar:

  • A necessidade de agradar.
  • O medo de decepcionar.
  • Uma relação que terminou, mas que continuamos tentando sustentar.
  • Um papel que aprendemos a desempenhar.
  • Uma culpa que carregamos há anos.
  • Uma versão de nós mesmas que já morreu, mas que continuamos tentando ressuscitar.

Hécate é uma senhora dessas passagens, dessa transformação e libertação. Quando pensar em abrir caminhos, lembre-se disso.

“Mas, Rosea, eu preferia não ter que chegar a esse tipo de momento, de transformação. Quero minha vidinha sossegada!”, eu te entendo, meu bem, só que vivemos em uma sociedade. E você ficar sossegadinha só vivendo sua vidinha em casa não é uma opção. Você quietinha em casa pode não ver, mas lá fora existe uma sociedade que decide sobre você, seu corpo, seu salário, os ideiais, etc. Não somos marionetes do deuses, então eles não vão decidir o que é bom ou não pra gente. Nós temos que lutar, escolher, decidir, agir. O que os deuses podem fazer são algumas interferências, sempre quando alguém os invoca. Dito isto…

Trabalhando com Hécate

Escolha uma noite em que possa ficar alguns minutos em silêncio. Acenda uma vela ou uma pequena lanterna. Coloque-a diante de você. Não faça um pedido imediatamente. Primeiro, observe a luz. Pense em uma situação da sua vida na qual você se sente presa. Pode ser uma relação, um medo, uma obrigação, um hábito, uma culpa ou simplesmente uma versão de você que já não existe mais.

Então pergunte:

O que está me prendendo?

Depois:

Qual porta preciso fechar?

Por fim:

Qual porta preciso abrir?

Não tente responder rapidamente. Hécate é uma deusa dos limiares. Algumas respostas precisam de tempo para aparecer… seja porque sentimos medo da mudança, seja por não conseguirmos aceitar a resposta, enfim… sem pressa.

Quando terminar, apague a vela. Não ache que terminou o ritual, pense nesse “apagar a vela” como se você estivesse fechando uma porta. E diga:

“Eu reconheço o caminho que termina.
Eu reconheço o caminho que começa.
Que eu tenha coragem para atravessar.
Que eu tenha sabedoria para escolher.
E que eu nunca esqueça que tenho a chave.”

Se quiser fazer uma oferenda, escolha algo simples: alho, ovos, mel, pão, vinho, alho-poró (ou outra coisa que vier intuitivamente) para Hécate. Deixe a oferenda no altar (normalmente, se for comida, você pode comer depois), ou se sentir que deve botar para “andar” a oferenda, leve para a encruzilhada em forma de T ou Y.

Que Hécate ilumine seus caminhos, guarde seus limiares e lhe dê coragem para abrir as portas que precisam ser abertas...

Abençoados sejam todos!

♥

Quer mais? Se liga aqui ó:

Um beijo!

Autor: Rosea Bellator
E-mail: oficinadasbruxas.odb@gmail.com

Atenção: A reprodução parcial ou total deste texto é proibida e protegida pela lei do direito autoral nº 9610 de 19 de fevereiro de 1998. Proíbe a reprodução ou divulgação com fins comerciais ou não, em qualquer meio de comunicação, inclusive na internet, sem prévia consulta e aprovação do autor.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress